Quebre velhos paradigmas e passe a se comunicar melhor na área de produtos

As equipes de produtos estão prontas para aceitar que nem sempre o outro vai interpretar a mensagem da maneira que ela foi concebida?

As equipes de produtos estão prontas para aceitar que nem sempre o outro vai interpretar a mensagem da maneira que ela foi concebida? Mas isso não é necessariamente ruim.

Esqueça a dinâmica emissor-receptor, o que eu quero te dizer aqui ultrapassa um processo estático e versa sobre as subjetividades do ser humano e como elas integram o exercício da comunicação na área de produtos dentro das empresas.

Também não quero te trazer uma receita de bolo, nem uma lista de recomendações sobre a comunicação em projetos digitais, tampouco vou te falar o que eu faço. Eu também não quero falar sobre empatia, esse conceito explicado exaustivamente na tentativa de melhorar os processos de comunicação nas empresas.

Agora esclarecido sobre o que não é esse texto, explico o que eu realmente gostaria de trazer por meio dele: uma reflexão sobre como temos gastado nosso tempo com a comunicação que todo projeto demanda, e um espaço para você pensar sobre o seu próprio modus operandi comunicativo.

Todo mundo em algum momento da vida aprendeu sobre os processos de comunicação e as dinâmicas de emissão e recepção. Essa teoria explica alguns fenômenos comunicacionais? Sim, sem dúvida. Mas, no ambiente de produtos, pensar comunicação numa dinâmica estática de emissor e receptor sem considerar tudo o que os atravessa é inútil.

Quebra de paradigmas em comunicação é entender de antemão que não há perfeição, muito menos linearidade no jogo emissor-receptor. Aceitar a ideia de que o amigo não vai entender perfeitamente aquilo que você trouxe num slide, tampouco se sintonizar imediatamente com o que você queria dizer é libertador e pode te dar a chance de:

1 - Agregar novos significados à sua produção;

2 - Abrir oportunidade para um diálogo que poderá enriquecer o seu entendimento sobre o tema.

Ou seja, abrir suas produções para colaboração e agregar pontos de vista para além das significações aportadas por você, é colocar mais lenha na fogueira nessa dinâmica estática de emissor-receptor.

Pois é meu caro produteiro, é sabido que uma fala, um e-mail, um slide ou uma conversa carregam significados que o próprio produtor imprime, ou seja, ao escrever esse texto, talvez somente eu saiba seu verdadeiro significado, e a partir do momento que ele ganhar o mundo, novos significados poderão ser atribuídos a ele. E isso não é necessariamente ruim se tivermos em vista a ideia de que atribuir sentidos às coisas do mundo é uma atividade individual do ser humano e que ela está intrinsecamente relacionada ao repertório de cada pessoa.

Ou seja, ao produzir narrativas estamos o tempo inteiro lidando com os riscos da reinterpretação, da má interpretação ou da ausência de interpretação. Além disso, a partir de uma história contada, releituras e adaptações podem ser feitas, isso significa que essa história linear de emissão-recepção é ilusão teórica.

Em produtos, isso pode ficar evidente quando perde-se algum requisito importante entre as etapas de Discovery e delivery e só se identifica um impacto no projeto em tempo de desenvolvimento. Até mesmo porque o tempo entre Discovery e delivery pode ser grande, e muita água pode rolar embaixo da ponte.

Ou seja, o produteiro, em comunicação, além de ter que lidar com os atravessamentos que as subjetividades das pessoas geram nas mensagens, lidam também com as temporalidades, e com as mudanças de estratégias internas e externas que demandarão ações comunicativas do dono do produto para alinhar expectativas e comunicar rotas, a fim de se conectar com o outro em busca de soluções para os problemas.

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O que eu quero te dizer aqui e que talvez te decepcione é: não existe fórmula mágica na comunicação em projetos digitais. O que existe é uma disposição extrema de quem emite uma mensagem em ser o mais claro possível.

E essa nem é a parte mais importante nesse processo.

Ao longo da vida internalizamos, de maneira consciente e inconsciente, que falar, emitir sons e produzir comunicação é uma habilidade de sobrevivência. Emitir sons para ter as necessidades básicas atendidas é um processo natural que o ser humano desenvolve ao nascer. Aprendemos muito mais sobre a relevância do processo de se comunicar e pouco sobre entender as nuances interpretativas do outro. O choro do bebe se aprimora naturalmente em fala, ensinamos as crianças a pedirem com gentileza quando querem algo, mas é raro ensinarmos a elas sobre analisar o impacto das suas falas no outro. E de novo, isso não é sobre empatia, mas sobre o exercício da leitura dos contextos em que as pessoas se inserem. A questão aqui não é sobre ouvir mais, ela é mais ampla.

A questão aqui é sobre como transformamos uma informação recebida em outra para resolver algum problema.

Um bom exemplo em produtos digitais são as interações sinérgicas entre os times de negócio e os time de TI. Algumas lacunas comunicacionais podem ser mitigadas a partir de dinâmicas dialógicas e colaborativas entre esses dois públicos de perfis, muitas vezes, diferentes.

O time de negócios pensa num projeto a partir de um arcabouço de fatores que consideram o mercado, o cliente e a estratégia da empresa. A partir disso idealiza o produto baseado em premissas sustentadas por estes fatores, e o time técnico reinterpreta tais premissas aportando o arcabouço de premissas do seu universo, numa dinâmica, de troca e iteração. Dentro dessa perspectiva e trazendo como referência o Scrum,  assim como os produtos, os processos de comunicação são iterativos, cada parte aporta valor de uma maneira para no final entregar um olhar 360º sobre o problema.

Uma vez ouvi a deusa Conceição Evaristo comentando sobre o “hum” da sua avó quando ela ouvia algo que não a agradava. O “hum” emitido seco, seguido de uma expressão contrariada significava muita coisa! O que eu quero dizer é que dentro de um processo de emissão-recepção há dois seres humanos que devem ser hábeis em interpretar os “huns”, como os da avó da Conceição Evaristo, os silêncios, as pausas, as lacunas. Além disso, sem a leitura de um contexto que perpassa as temporalidades e as motivações de cada um dentro do jogo de emissão-recepção, a comunicação eficaz não acontece.

Não deve ser difícil promover esse tipo de comunicação nos times de produto, pode ser simples se os fluxos de projetos incorporarem práticas comunicativas que considerem a resolução de problemas e a transformação de cenários. Tudo isso num ambiente onde as pessoas possam comprometer-se sem medo, por meio de uma cultura colaborativa.

Uma comunicação falha começa em ambientes pouco favoráveis à colaboração e a co-criação

Afinal, quem se compromete com a autoria de narrativas numa cultura pouco colaborativa? Quando há confiança na informação, pois já foi feito um giro em 360º que avaliou o tema, e quando o ambiente é colaborativo, promove-se transparência, e a consequência é a confiança em dizer o que deve ser dito e o comprometimento com a narrativa.

A disposição em se comprometer com uma informação e um ambiente propício à colaboração aporta transparência na exposição de narrativas e melhora muito a vida na área de produtos.  

É importante não perder de vista que todas as ações comunicacionais que emergem dos processos de produtos nas empresas são construídos dentro do contexto das tecnologias informacionais da sociedade de informação de 2022, ou seja, uma sociedade hiperconectada, que divide a atenção entre as diversas redes e plataformas para dar conta das solicitações que chegam, por isso, e para trazer um pouco de lugar-comum para esse texto, eu te digo: seja gentil, tire dos olhos o véu dos ranços antes de produzir falas e textos, mire na resolução do problema e no que realmente importa: fazer um produto que atenda as expectativas dos seus clientes.

Até mais.

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