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5 ordens de ignorância e o discovery de um PM

Conhecendo os níveis onde o conhecimento é percebido ao processo de desenvolvimento de software

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Quando falamos sobre ignorância, prontamente associamos com a falta de tato (ou de educação) ou com o senso de simploriedade. Mas o mais correto é relacionarmos com o conhecimento sobre determinado assunto que cada um tem. Quanto mais você conhece um tema, menos ignorante você é em relação a ele.

Na vida de um Product Manager (PM), essa noção está intimamente ligada a como sua função é desempenhada. Quanto mais você conhece sobre o produto e os problemas que ele resolve, menos você “ignora” as melhorias que devem ser feitas. Quanto mais competente você é para identificar o que domina ou não domina, melhor estabelece um bom processo de discovery e acompanhamento do delivery.

Em um artigo publicado em 2000, Phillip G. Armour propõe alguns níveis onde o conhecimento é percebido ligado ao processo de desenvolvimento de software. Ele chama de 5 ordens de ignorância. Em cada uma das ordens conseguimos identificar o quão ignorante podemos ser em relação a um tema e como podemos diminuir esse gap (vale a pena também ler sobre o efeito Dunning-Kruger). Eu tomei a liberdade de apresentar os mesmos níveis propostos por ele e correlacionar com as atividades do dia-a-dia de um PM.

Nível 0 - Falta de ignorância

No nível mais básico, temos a falta de ignorância, onde a pessoa detém o conhecimento sobre determinado assunto. O grande “Eu sei”. É quando não há dúvida se tal informação é o que parece ser ou não, você simplesmente conhece o assunto e sabe o que ele engloba e o que ele não engloba.

Se fizermos um paralelo no dia-a-dia de um PM é exatamente quando uma hipótese é validada ou refutada. Quando a entrega de uma funcionalidade ou melhoria foi feita para cliente(s), seu uso foi acompanhado e você consegue obter dados que confirmam que a solução atingiu seu objetivo ou quando você identifica que a solução não performou conforme esperado.

Pra mim representa o fim de um ciclo de discovery/delivery onde você pode usar aquela informação para elaborar outras hipóteses ou iterar sobre a solução alcançada.

Nível 1 - Falta de conhecimento

Já no nível 1 proposto por Armour está a falta de conhecimento, que se compreende em não deter o conhecimento sobre o assunto e saber que não detém determinado conhecimento. Podemos traduzir como “Eu sei que eu não sei”. Sabemos que idealmente não iremos saber sobre todos os assuntos, mas é muito importante estar nesse nível na maioria deles, pois dá clareza no que você consegue opinar e no que você não consegue. Não há dúvida que você não domina o assunto e tudo bem: você sabe que não o domina.

No ponto-de-vista de um PM, a falta de conhecimento está equiparada com quando uma hipótese é definida. Você já fez o discovery relacionado a determinado tema, identificou os problemas, listou os dados que corroboram para determinada sugestão de solução, coletou percepções de entrevistas e questionários com clientes e equipes internas e propôs uma funcionalidade ou melhoria que condiz com a estratégia da empresa e valor de negócio para o cliente. Não há dúvida sobre o problema que quer resolver, mas há dúvida sobre se a solução resolve ou não ele. É um conhecimento que você ainda não tem.

Para mim é o final do discovery e o momento em que é passado o bastão para o time de engenharia começar a trabalhar na entrega e rollout dessa solução. Após esse momento, descemos em mais um nível de ignorância, conhecendo o resultado da hipótese recomendada.

Nível 2 - Falta de consciência

No nível 2 temos a falta de consciência onde a pessoa não domina o assunto e não tem noção de que esse assunto não faz parte dos conhecimentos que ela detém. É o “Eu não sei que eu não sei”. É o nível de ignorância mais perigoso, pois dá a falsa sensação de que o tema é algo dominado pela pessoa, mas na verdade não é. É como estar dentro de uma bolha. Você nem tem dúvida, porque acha que não é preciso ter dúvida. Eu vejo que é onde as pessoas têm que ter muito cuidado e sempre se questionar.

No contexto da gestão de produtos, é quando ainda não há hipóteses de solução. Você não sabe nem ao certo qual é o problema a ser resolvido e por isso não tem como definir uma sugestão de melhoria ou funcionalidade, porque qualquer proposta não vai fazer sentido, o que será resolvido com ela? Por isso, é muito importante definir bem o problema, a meta a ser atingida quando o problema for resolvido, a métrica a ser monitorada quando a solução for testada, para aí sim você identificar o que sabe e o que não sabe.

Na visão de processo, é o início do discovery quando existe apenas um direcionamento estratégico, onde ainda não se sabe se é o rumo correto, mas que precisa de mais informações para diminuir o grau de ignorância e trazer à consciência a falta de conhecimento que existe sobre aquele tema.

Nível 3 - Falta de processo

Já o nível mais alto da ignorância, é a falta de processo onde a pessoa não tem noção do conhecimento em si para poder tirar alguma conclusão sobre deter ou não o assunto. É bem abstrato, mas consigo traduzir como “Eu não sei como eu não sei que eu não sei”. Para esse nível não existe exemplo específico, pois implica em nem saber sobre ele, pois se soubesse descobrir como saber sobre o tema, já estaria pelo menos no nível abaixo onde a pessoa pelo menos identifica o assunto 🤯.

Eu equiparo este nível a uma pessoa que nem conhece sobre gestão de produtos digitais, não tem a mínima ideia sobre o que discovery e delivery e nem estaria lendo esse texto.


O que tiro de aprendizado nessa comparação entre a escada do conhecimento com o dia-a-dia de um PM é que nós sempre trabalhamos a fim de diminuir nossa ignorância em relação ao nosso produto e como ele é oferecido aos clientes. Quando construímos um produto digital, não sabemos se ele vai ser usado da forma como desenhamos, é somente na prática (ou “em produção” como dizemos) que identificamos novos problemas (ainda sem saber ao certo como resolver), elaboramos ideias sobre como mitigá-los considerando os desafios técnicos, de processo e de mercado e por fim, disponibilizamos uma entrega (output) que ratifica ou não a visão que tínhamos de solução de problema (outcome).

Também está totalmente relacionado à priorização de backlog, pois quanto mais “ignorantes” estamos em relação a um tema, menor é seu grau de certeza e a nossa consideração recai mais sobre o impacto que determinado tema tem para colocá-lo em uma posição ou outra na ordem de implementação.

P.S.: Você pode ter reparado que faltou o 4ª nível de ignorância… Ele não passa de uma meta ignorância: quando você não conhece as 5 ordens da ignorância propostas pelo artigo original. Algo que agora você já conhece ao ler esse texto 🙃.

Referências