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Co-responsabilidade e dilemas éticos

Como pessoas que gerem produtos são co-responsáveis pelos dilemas éticos que enfrentamos e iremos enfrentar no futuro como sociedade

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Eu não sei se já falei pra vocês, mas minha percepção é de que estamos vivendo uma transição de comportamento tecnológico muito grande. Estamos aprendendo a lidar com uma série de mudanças de lógicas racionais que extrapolam as experiências prévias da humanidade e por isso a coisa é tão difícil de se acostumar.

O foco, nem precisa ser a tecnologia em si, mas o que criamos com ela. Vide toda a polêmica que gira em torno do Bitcoin ou até mesmo de evoluções como o CRISPR. Essas e outras evoluções encostam em um assunto comum: ética.

Quem leu meu livro viu que há um capítulo dedicado sobre ética em Produtos Digitais. São apenas alguns comentários meus sobre um assunto muito complexo que eu não tenho condições intelectuais de dominar. Eu entendo um pouco de tecnologia, mas entender de ética é algo totalmente diferente. E você também deveria tentar se aprofundar cada vez mais nesse assunto.

Discutir se é certo ou errado o Facebook usar ou não os seus dados para manipular sua opinião política é a coisa mais simples que nós lidaremos daqui pro futuro. Nós estamos passando por uma transição tão profunda que não vai apenas mudar nossas formas de se relacionar (de novo) ou de fazer negócios, mas principalmente nossos valores mais fundamentais.

Um novo formato para pensar em ética

É necessário existir uma forma ou uma espécie de plataforma ou framework pra repensarmos em como devemos lidar com os dilemas éticos que surgirão cada vez mais no mundo digital. A questão sobre quem deveria controlar ou usar seus dados não é uma resposta totalmente clara, principalmente quando falamos sobre soluções que podem afetar a sociedade global.

O Francine Berman e o Vinton G. Cerf falam um pouco sobre isso nesse artigo. Um exemplo interessante que eles dão é: suponha que hospitais guardem as informações, como o histórico médico de seus pacientes. Essa já é uma discussão antiga e é claro que isso traz uma proposta de valor muito clara para os pacientes. Mas, indo além, e se esses hospitais compartilhassem esses dados com serviços de controle de doenças pra prevenção ou notificação de possíveis novas pandemias no mundo, seria certo ou errado? Eu sei que já existe um movimento assim e informações sobre pesquisas e dados de pacientes são compartilhados em algum nível. Mas aqui não estamos falando do Facebook, estamos falando de instituições públicas ou hospitais particulares.

Eu sei que de primeiro pensamento, dar a opção para o usuário decidir seria o mais correto, já que os dados são dele… mas o perigo de passar por uma pandemia é coletivo.

Eu fiquei muito desconfortável sabendo que o governo consegue monitorar minha locomoção de uma maneira tão fácil. Eles fizeram isso o tempo todo durante a pandemia para medir a adesão ao confinamento. Eu não me lembro de ter concedido tal permissão. Mas confesso que isso trouxe vantagens que ajudaram no controle para as autoridades em um momento tão crítico, mesmo que as iniciativas criadas usando essas informações tenham sido tão pífias.

O assunto dados é apenas um assunto que por si só já traz uma série de coisas para pensar quanto ao seu tratamento, compartilhamento, viéses e storage. Exatamente por que dados são a moeda de troca inicial para esse novo mundo digital que estamos criando. Dados, nesse caso, são o nosso comportamento materializado no formato digital.

Co-responsabilidade

Falar de ética é difícil. E quando esse assunto se conecta com a velocidade da tecnologia, a coisa fica muito mais complexa do que ela já é.

Se uma instituição ou qualquer iniciativa pode influenciar as decisões que as pessoas, outras instituições e também a sociedade tomam sobre seus comportamentos corriqueiros, há uma responsabilidade ética envolvida.

Isso quer dizer que todos que fazem gestão de forma direta ou indireta de produtos e serviços digitais são responsáveis por moldar um novo conjunto de valores éticos.

Os Produtos Digitais que construímos podem influenciar as pessoas e instituições a tomarem decisões certas ou erradas, lícitas ou ilícitas. Nossos produtos podem influenciar políticas públicas ou criam debates que influenciam a vida habitual das pessoas, impactando seu modo de viver, trabalhar e se relacionar.

Concluindo

Quando criamos um meio pelo qual as pessoas interagem, elas nos dão seu tempo de atenção para que possamos ajudá-las a resolver um problema específico ou a sanar um desejo ou necessidade. Por isso é importante que o PM e o time responsável pelo Produto tenham em mente, não apenas a proposta de valor do produto e da empresa, mas também os princípios de éticos de conduta que fundamentam as decisões tomadas pelo board, diretoria, stakeholders e os outros times da empresa.

Quais os limites éticos você e seu produto talvez ultrapassem nos próximos anos? Existem dilemas éticos que você é sua empresa estejam enfrentando agora?

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